Julho das Pretas

"Com esse cabelo, com essa cor, e com essa roupa meu amor… Black power nosso, Força afro!" - Drik Barbosa

Desde o ano de 2013, acontece, no Brasil, o Julho das Pretas, que é uma agenda de atividades conjuntas voltadas para dar visibilidade às pautas e fortalecer organizações de mulheres negras, no combate do racismo e do sexismo, bem como outras violações de direitos. A iniciativa partiu do Instituto Odara - Instituto da Mulher Negra -, na Bahia, e aderido em outros estados do país.


O mês de comemoração vem inspirado no 25 de julho, que é dia Internacional da Mulher Negra Afro Latina-americana e Caribenha, além de celebrar o dia Nacional da Mulher Negra e dia nacional de Tereza de Benguela, mulher negra que liderou o Quilombo do Quariterê. A proposta do Julho das Pretas é desenvolver atividades voltadas para a "superação das desigualdades de gênero e raça".  


Em 2020, a 8ª edição com o tema Em Defesa das Vidas Negras, Pelo Bem Viver, a agenda conjunta teve de ser totalmente online e a programação contou com ocupação virtual - o 24h das Pretas -, lives, palestras, bate-papos, etc. No perfil do Instagram (@julho_das_pretas) é possível encontrar toda a programação passada e as que ainda acontecerão, então ainda é possível participar.


"Andando na rua de noite muita gente branca já fugiu de mim. A minha ameaça não carrega bala mas incomoda meu vizinho. o Imaginário dessa gente dita brasileira é torto. Gritam pela minha pele, qual será o meu fim?" Ellen Oléria


Mas por que é necessário o Julho das Pretas?


Pode parecer um pouco óbvia a importância de um movimento como esse, com uma programação como essa, entretanto faz-se necessário trazer informações para lembrarmos das desigualdades que estruturam nossa sociedade. 


Dados sobre segurança pública

Segundo publicação do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, entre 2007 e 2017, 61% dos casos de feminicídios são contra mulheres negras. Entre 2017 e 2018, 51% das mulheres vítimas de estupro eram negras. Esse mesmo estudo aponta que mulheres negras morrem de forma mais violenta que mulheres brancas.


Dados sobre emprego e renda

Em estudo divulgado pelo Ipea em outubro de 2018, constatou-se que as mulheres negras sofrem mais oscilações em relação ao desemprego, do que homens. Sobre rendimento médio salarial, segundo dados do IBGE de 2018, a desigualdade salarial entre mulheres pretas ou pardas e mulheres brancas é de 58,6%. Outro dado importante sobre emprego é que quando se fala de mulheres tendo trabalho informal como ocupação, 47,8% correspondem a mulheres pretas ou pardas, enquanto 34,7% são mulheres brancas.


Dados sobre educação

Apesar das mulheres superarem os homens nos indicadores educacionais existe uma grande desigualdade entre mulheres brancas e pretas ou pardas, segundo dados do IBGE de 2016, da proporção de pessoas que frequentam a escola no nível escolar adequado para sua faixa etária, 30,7% das mulheres pretas ou pardas entre 15 e 17 anos apresentam atraso, enquanto apenas 19,9% de mulheres brancas na mesma faixa etária apresentam atraso. Além disso, o percentual de mulheres brancas com ensino superior é mais do que o dobro do que o calculado para mulheres pretas ou pardas, sendo 23,5% mulheres brancas, 10,4% mulheres pretas ou pardas.


Dados sobre vida pública

Segundo dados do IBGE de 2018, mulheres pretas ou pardas constituíam  apenas 2,5% dos cargos de deputadas(os) federais e 4,8% dos cargos de deputada (os)s estaduais eleitas(os).

"Se não dermos as mãos é dor!" - Drik Barbosa

A Psicologia no combate ao racismo, sexismo e qualquer forma de discriminação


Apoiando-se não só em dados como os citados acima, como também em toda a sua história lado a lado com os movimentos sociais, a Psicologia firma seu lugar na luta contra toda e qualquer forma de discriminação e preconceito. Tendo o código de ética como norte, cada vez mais vemos psicólogas e psicólogos engajados em uma prática psicológica que contribua para a diminuição do sofrimento psíquico causado pelo racismo, pelo sexismo e pelo machismo, bem como um expressivo número de pesquisas na área.


No ano de 2017 foi publicado o documento "Relações Raciais: referências técnicas para a prática da(o) psicóloga(o)", que visa orientar as(os) profissionais para uma prática que leve em consideração as especificidades da existência das pessoas negras e de todo o sofrimento causado pelo racismo enquanto estrutura de nossa sociedade. 


No caso das mulheres negras, há ainda o agravo causado pelo machismo e o sexismo, que trazem questões ainda mais específicas. Além de ter muitas psicólogas e psicólogos que atuam e pesquisam especificamente o assunto, o Conselho Federal de Psicologia busca estar sempre promovendo espaços para que essa pauta seja sempre debatida e que a prática profissional seja cada vez mais capacitada para acolher de forma adequada as demandas vindas dessas mulheres.

"Sou mulher, sou preta, essa é minha treta! Me deram um palco e eu vou cantar!" - Bia Ferreira
"Não podem arrancar o orgulho de nossa pele negra!" - Yzalú

Celebremos em Julho!


O existir de uma mulher negra é um grito de guerra contra essa sociedade que discrimina, que silencia, que mata. Os corpos de mulheres negras são instrumentos de luta, de resistência. As vozes das mulheres negras ecoam como uma força que se nega a cessar. Então que se possa celebrar essa existência, que a cada dia - não só de julho, é claro - cada mulher negra possa celebrar sua vida, sua cor, sua liberdade. 


Que nesses últimos dias do mês, mais mulheres negras possam encontrar voz e vez na sua família, em sua comunidade, em seu país. Que se empoderem para ocupar cargos públicos e de visibilidade, que possam estar em todos os lugares possíveis. Que meninas de cinco, seis, sete anos possam olhar para a TV e encontrar referências que as façam ter orgulho de suas cores, de seus cabelos. Que a sociedade como um todo possa reconhecer suas faltas e entender que a potência de uma mulher negra não pode ser parada nem calada, não pode ser morta. 

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